terça-feira, 23 de junho de 2009


Um fino nevoeiro cobre os topos baixos dos prédios logo pela manhã. Um pôr-do-sol que tenta imitar o de Brasília se levanta tímido, mas sabendo da sua boa recepção. Pessoas caminham, mais alegres do que conformadas, em uma manhã de inverno. Nas ruelas, garotos alemães tocam berimbau.
Curitiba é uma cidade que representa muito bem o contraste interoceânico que sempre permeou o sul-sudeste brasileiro. Essa falsa identidade sul-americana/europeia se mescla com gritos indígenas bem escondidos, mas poderosos Sul afora.
Estas são percepções de um paulistano mal-inserido, que passa algumas semanas em uma cidade que não lhe chamava muito a atenção, mas que agora o faz mudar de ideia. É cada vez mais fascinante perceber a imensidão de um país que insiste em ser uma nação, e que talvez o seja justamente por essa teimosia. Nossas idiossincrasias regionais vieram dos ovos de casca fina que um dia eclodiram de um ooteca portuguesa, sendo hoje seres que tecem várias teias capitais. Não creio, no momento, que possamos fazer muito para "sanar" nossos problemas de identidade. Ou mesmo se devemos saná-los, adjetivando-os de incoerentes. Talvez a nossa indefinição, cada vez mais profunda, siga se arraigando para um anseio que inerentemente nos definirá.

sábado, 6 de setembro de 2008

Quem está certo?

Homem não presta e todas as mulheres são loucas? Talvez. Mas será que é algo assim tão simples?



Vamos pegar o padrão clássico do relacionamento homem-mulher no diálogo abaixo:

H: Amor, tudo bem?
M: (com cara fechada) Tudo bem sim...
H: O que foi?
M: Nada não.
H: Não mesmo?
M: Não, tá tudo bem.
H: Então tá.

Um tempo depois...

H: Amor, vamos comer alguma coisa?
M: Ai, nem tive tempo de cozinhar hoje (supondo-se, machistamente, que ela devesse cozinhar e ele não).
H: A gente pede uma pizza.
M: Pizza de novo?
H: Mas faz tempo que a gente não come pizza.
M: Ai, tá bom, pede uma pizza...
H: O que foi? Tá tudo bem?
M: (Suspiro)
H: Qual é o problema? Me fala...
M: Ah, se você não sabe eu também não vou falar!

Este tipo de diálogo eu já presenciei com muitos amigos meus. Eles e suas namoradas ou elas e seus namorados chegam a um ponto no qual parece que o certo e o errado são fáceis de ser apontados para um homem, que terá o julgamento diferente do de uma mulher. Enquanto um homem dirá que o sujeito acima não fez nada demais e a mulher é que começou com frescura e está com problemas que não quer falar, fazendo ele pirar na batatinha, a mulher provavelmente inferirá que o homem tinha causado um problema antes e, com seu cérebro de minhoca, como é o cérebro de todos os homens, esqueceu-o ou não lhe deu a devida importância.

Também estou generalizando quando digo que é dessa maneira que os homens e as mulheres irão interpretar o diálogo, mas é interessante a gente notar uma coisa muito séria: a importância da subjetividade. E ela é tão importante (e desimportante) justamente porque ela não é palpável. Então será que ela existe?


Ninguém nega a existência dos sentimentos. Ou pelos menos a força de seus impactos. Mas podemos negar, quando achamos necessário e conveniente, que a outra pessoa está "exagerando" em suas reações. Isto é típico do homem em relação às reações femininas. E as mulheres acusarão o homem de ter a sensibilidade de um porco-espinho e não perceberem as finas camadas imiscuídas no relacionamento de ambos. Quem está certo? Quem está errado?

Ambos estão certos e ambos estão errados. O comportamento feminino e o comportamento masculino simplesmente diferem porque as visões de mundo de ambos são díspares e muito provavelmente seguirão assim pelo resto de suas vidas. Nem eu nem ninguém conhecemos uma fórmula mágica capaz de mudar isso. A minha bronca vai para as mulheres, para variar um pouco:

Mulheres, se os homens são emocionalmente incapazes (e não digo que não sejam – sentimentos são algo que aprendemos a rechaçar desde a nossa mais tenra idade) até que ponto vocês podem exigir deles uma compreensão que vocês mesmas condenariam em filhos homens de vocês? Pensem bem: se um filho seu viesse dando uma de super sensível, demonstrando sentimentos sem necessariamente falar sobre eles, qual que seria o seu comportamento? Muito provavelmente um bem preconceituoso e reacionário ("Fala logo, moleque!"). Um homem não deve se comportar assim! Um homem não deve deixar seus sentimentos aflorarem a ponto de ficar demonstrado o quanto ele é frágil. Mas os homens SÃO frágeis. Foram, são e sempre serão. Mas eles devem se portar de maneira a controlar essa expressão para se constituírem em verdadeiros seres masculinos, seres masculinos pelos quais VOCÊS se apaixonarão.

É tudo um ciclo. Um ciclo cultural-educacional do qual todos nós fazemos parte e que todos perpetuamos. Somos tão culpados quanto aqueles que nos antecederam. Somos culpados se somos os algozes ou se somos as vítimas. E todos somos ambos. Somos culpados porque somos inertes e não fazemos nada de substancial para mudar esse círculo vicioso. E, por mais que o condenemos, seremos aqueles que, de uma maneira ou de outra, ainda criaremos nossas garotas para sonharem com o dia em que encontrarão seu príncipe encantado e caminharão até o altar com véu e grinalda. E para piorar, criaremos os nossos garotos de uma forma que eles jamais entenderão a importância de um sentimento verdadeiramente expresso, ficando presos às superficialidades e à não-compreensão do desejo alheio, já que não compreendem o desejo dentro deles mesmos. É uma armadilha na qual caímos. E somos nós mesmos que a montamos.

domingo, 24 de agosto de 2008

Só bebendo...



Daí esta semana eu compareci a uma entrevista de emprego para uma vaga de tradutor. Não é exatamente a minha área maior de atuação, mas sempre gostei da coisa.

Na verdade, mais do que uma entrevista, era uma dinâmica. Ou deveria ser, enfim. Chegamos (eu e os outros candidatos) e ficamos esperando do lado de fora do edifício até sermos chamados. Quando chegamos a uma salinha, éramos em sete ou oito. Foram-nos dadas duas folhas para cada candidato para preenchermos com nossos dados e escrever uma mini-redação. Depois, deram-nos uma só folha sulfite para todo o grupo para que fizéssemos algo com ela. Decidimos fazer um aviãozinho de papel, por alguma razão estúpida que as empresas acham tão representativa em um objeto de celulose. Escolhemos o avião porque representava empreendedorismo ou coisa do tipo. Nisso, o cara do grupo que fez o aviãozinho, para "provar" que ele funcionava, jogou-o ao ar e ele, por "acidente", voou pela janela.

Depois veio um monte de balela: "Ah, e agora, o que a gente faz?" e eu e outros no grupo falando "Calma, se a gente tomou a decisão de fazer o avião em grupo, vamos assumir a responsabilidade em grupo, etc. e tal". Mas confesso uma coisa: desde o começo percebi que o moço que "acidentalmente" jogou o avião pela janela era qualquer coisa menos um candidato como nós. Além de ser bem mais velho e ter um jeito diferente, na hora de escrever a redação, ele ficou rabiscando umas coisas no papel. Por isso já imaginava que era um outro truque de RH.

Acontece que o sujeito era o dono da empresa. E quando ele assumiu isso e muita gente ficou pasma, começaram as três horas mais inúteis da minha vida. Ele falava, falava, falava e falava. Dele, é claro. Como ele era maravilhoso, a empresa dele perfeita e como a vida dele tinha sido fantástica. O engraçado é que poucas coisas que ele falava faziam sentido. E, para dar uma de filósofo, ele chegava e perguntava, mostrando uma caneta: "O que é isto?" E a gente: "Isso é uma caneta". E ele, o supra-sumo, retrucava: "Nãããããão, não é uma caneta. Esta é a minha mão", já que, obviamente e respeitando as leis da física, a mão dele estava segurando a caneta; ela não estava pairando no ar. E por assim foi.

"O que é uma caneta?", ele perguntava. E, qualquer resposta que fosse dada, ele dizia "Nããããão! Isto porque te ensinaram que uma caneta é isto. Você nunca se perguntou: o que é uma caneta? Quando você era criança, você parava para se perguntar o que era uma caneta?"

E daí chegava a hora de se perguntar sobre o trabalho. Ele dizia: "Aqui na empresa nós não trabalhamos. Nós sonhamos!" Não querendo perder tamanho ensejo, tive que perguntar: "Então, será que eu posso sonhar na sua empresa?" Lógico que esta não era uma pergunta aceitável para ele, que só queria rebater. Pois então, ele queria que nós falássemos de todos nós e do que poderíamos oferecer. Éramos vários: candidatos a tradutores, analistas de T.I., recepcionistas, atendentes. Todos juntos. E com certeza não fazendo a mínima idéia do que estávamos fazendo ali.

À medida que ele ia falando sobre as suas opções alimentares - dele e da empresa, já que todo mundo que trabalhava lá só podia comer comida macrobiótica, as quais envolviam raízes do interior de Minas Gerais, plantas absurdas do Oriente Médio e o que mais fosse incomum - ele também falava das suas cuecas, que eram feitas com cipós amazônicos, cada qual custando mais de oitenta reais. Nessa hora eu só conseguia pensar: é bom que o salário nesta empresa seja MUITO bom.

Porém, ao fim (depois de três horas!!!) eu só pensava que de maneira alguma queria trabalhar lá. Para que pudesse dar o resultado final, ele pediu que nós lhe enviássemos um e-mail falando sobre nós para que ele pudesse nos escolher. Enviei um e-mail no dia seguinte agradecendo pela oportunidade de participar da dinâmica e dizendo que não estava interessado em qualquer cargo na empresa.

Nestas horas me pergunto: no meio de tudo aquilo, porque não me levantei e fui embora, mandando o cara para aquele lugar? Toda a sessão da dinâmica parecia uma aula de mau gosto de filosofia do secundário, desde "o que é uma caneta e o que é aprender?" até ele falando incessantemente sobre como as mulheres não resistiam a ele e o que era amor (cuja visão, por sinal, me pareceu a de alguém emocionalmente perturbado e profundamente dependente).

Mas eu ri muito com meus amigos no dia seguinte, contando essa aventura. Com o passar do tempo, nós ficamos mais críticos e, se a necessidade não é tão avassaladora, evitamos nos rebaixar ao ponto de trabalhar para qualquer tipo de pessoa e fazer qualquer serviço. É bom poder escolher. Melhor ainda é poder rir das escolhas idiotas que nos levaram a ir a uma entrevista trancafiante em um lindo dia de sol para ouvir sobre amor doentio, cuecas de juta e sistema digestivo diferenciado. Só bebendo mesmo...

Leoninos!!!



E PARABÉNSSSSSS (22/08) à minha amiga Renata Emy de Mato Grosso, prova maior da amizade à distância, hehe!!!

Te adoro, amiga. Parabéns para nós!!!

Beijão!

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Piqueteiros de classe

Dificilmente eu pego ônibus aqui em São Paulo. Geralmente consigo ir de um canto a outro andando, coisa que eu sempre gostei muito de fazer, onde quer que eu morasse. Uma caminhada de quarenta minutos ou uma hora para mim é, geralmente, muito gostosa. Mas hoje eu tinha que ir daqui de casa até a São João e, como ir a pé não dava pé, peguei um busão.


É nessas horas que eu me lembro muito bem o porquê de eu não entrar nesse maldito trânsito. Já não bastassem o veículo lotado, as pessoas pisando nas outras, acotovelando-se, xingando o motorista e o cobrador e vice-versa, nós simplesmente não saíamos do lugar. Ficamos mais de meia-hora parados no cruzamento da Faria Lima com a Rebouças e, então, resolvi voltar para casa, pois já tinha perdido o meu compromisso.
O que causou o engarrafamento (além da típica sexta-feira, que aqui em São Paulo é sempre congestionada) foi a manifestação dos professores da rede estadual de ensino na avenida Paulista. Complicações à parte (que foram muitas) não tiro o direito deles e acho que a única maneira de chamar a atenção das autoridades é piorando uma das coisas que Sampa tem de mais problemáticas: o trânsito.

Daí volto para o meu bairro e percebo que também há uma manifestação na USP. Os funcionários da universidade estão paralisados pedindo reajuste salarial e mudanças no plano de carreira. Mais uma vez, nada contra e apoiado; apesar de não conhecer a realidade dos salários uspianos, imagino que eles dificilmente tenham seguido o passo da inflação. Mas o que me espanta é os alunos da USP terem "aderido" à greve. Isto é algo com que eu, vindo de uma universidade pública, já estou acostumado. Vira e mexe, vários estudantes se revoltam contra a "ordem estabelecida" dentro do campus e fazem uma proto-revolução. No fim, tudo volta ao normal, todos se esquecem do que foi reivindicado e os semestres são retomados.

Fico pensando se esses mesmos alunos reivindicariam melhorias no ensino geral. É sempre assim: qualquer problema estatutário ou de decisões que ocorre dentro da universidade pública, lá vão os alunos montar barricadas para fazer valer a sua voz. Muitos não sabem como usar essa mesma voz. Parece-me que eles realmente não se preocupam em relação à educação como um todo, mas só com o ensino superior que, francamente, apesar dos problemas que apresenta, não tem uma fração dos que o ensino público escolar enfrenta no país. Nossas crianças e adolescentes mal sabem ler, não têm domínio das quatro operações fundamentais da matemática, não têm noção do próprio país onde vivem. Mas eles são invisíveis. Para esses alunos de faculdade, grande parte dos quais estudou em escolas particulares, isso não é problema. Só problemas com o reitor são casos de vida ou morte.


É óbvio que a universidade pública está cada vez mais sucateada. Qualquer um que estuda nela (em especial alunos da área de humanas) pode afirmar isso. Mas parece que, para esses mesmos alunos, a educação pára ali. Se querem reivindicar, por que não o fazem de maneira geral? Se os professores universitários têm o valor do seu salário real reduzido cada vez mais, o que dizer dos professores do ensino básico e médio?
O elitismo continua mesmo nos movimentos sociais. Parece que alguns protestos são mais válidos do que outros. Uns, só por serem em uma universidade pública, já vão para as manchetes de jornais. Outros só atingem esse status se pararem o trânsito na maior cidade do país.

sexta-feira, 14 de março de 2008

A loira do banheiro sai à caça

Li hoje na Folha Online uma reportagem sobre um acontecimento inusitado em Manaus. Corre na capital amazonense a história de uma loira em um carro preto que sai por aí raptando crianças para roubar seus órgãos e vendê-los. Daí foi só a polícia prender uma loira acusada de tráfico de drogas para a população revoltada, sem nem pensar no caso, correr para a delegacia e querer linchá-la, sendo que ela não tinha nada a ver com a venda de órgãos.

As pessoas são muito ingênuas. Segundo a reportagem, essa indignação vinha sendo alimentada por programas policiais do estilo "Cidade Alerta" que, embora eu não tenha visto, já que não moro lá, provavelmente faziam aquelas ridículas dramatizações e aumentavam o terror de pais que nem se preocupam muito com os filhos nas horas vagas, mas é só haver uma comoção popular para o sentido coruja ficar aguçado.

Depois de esclarecida a confusão e a loira detida nem por tráfico de drogas ser presa, a multidão se dispersou. Será que eles não se sentiram nem um pouco bobos? Será que não tem aquele sentimento de que agiram feito uma maria-vai-com-as-outras e, de boca em boca, podiam ter linchado uma pessoa inocente? Às vezes a falta de racionalidade do povo dá muito medo.

Essa história de uma pessoa misteriosa em um carro preto roubando crianças eu ouvi inúmeras vezes na minha infância. Não sei se vocês lembram, mas parece que tinha uma novela da Globo (não lembro o nome) em que isso acontecia, e daí que eu acho que o mito começou a se espalhar. Quando morei em Mato Grosso, a mesma coisa: corria a lenda de que uma pessoa, em um Opala preto, saía por aí roubando crianças e vendia seus órgãos no exterior.

É claro que raptos de crianças existem. Eu mesmo, lembro-me nitidamente, quase fui levado por um casal desconhecido quando empinava pipa no Parque do Carmo aqui em São Paulo, lá pelos meus sete anos. Não fosse minha mãe e minha tia terem chegado a tempo e me tirado deles, vai saber o que seria de mim?

Mas as lendas urbanas são muito estranhas. E muito estilo Hollywood. Eu acho que as pessoas precisam disso. Não corremos mais atrás de bisões enormes ou fugimos de feras. Não saímos mundo afora para conquistar novos lugares ou lutar contra invasores. E, hoje em dia, como povão que a maioria somos, não temos dinheiro para investir em esportes radicais que nos dão a sensação de morte iminente quando na verdade estamos presos por cabos hiper-seguros e supervisionados por instrutores altamente qualificados. Quando estamos na chata rotina do dia-a-dia, sem nada para fazer a não ser pegarmos o ônibus lotado, trabalharmos com a cara amarrada e nos preocuparmos em como pagar as contas no fim do mês, temos que inventar ou acreditar em tolas histórias misteriosas que farão nossas emoções aflorarem para que nos sintamos pelo menos um pouco mais humanos.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

A caravana dos estereótipos

Lendo o site do UOL hoje, deparei-me com uma notícia que me deixou pasmo: "Cigano que emprestou dinheiro para prefeito ganha praça na Bahia". O que me deixou boquiaberto não foi a notícia em si, já que escândalos políticos se tornaram algo tão lugar-comum que infelizmente estranhamos quando não os vemos, mas sim a questão do "cigano".
É inaceitável que um meio de comunicação em massa como o UOL, segundo eles próprios o maior portal da internet em língua portuguesa, ressalte, pelo título e por toda a notícia, o fato que o agraciado pela praça era rom. Para quem não sabe, rom é o nome dado ao que costumamos chamar de "cigano" (plural: roma). "Cigano" é um termo que não lhes agrada muito.
É um problema sério que José Mauro de Oliveira Filho, prefeito de Queimadas (BA), tenha feito essa doação irregular, mas o fato de o receptor ser "cigano" tem relação com isso? Se ele fosse algum outro tipo de cidadão, muito provavelmente não haveria referência à sua etnia.

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A sensação que sinto em relação aos roma é muito peculiar. Nunca, jamais mesmo, lembro de, em minha educação, ter tido contato com qualquer história ou referência negativa a eles. Como toda criança de visão enviesada, via os roma como pouco diferentes dos estereótipos apresentados em desenhos e filmes: viajantes aventureiros e ocasionais leitores de mãos e bolas de cristal. O meu conhecimento mais profundo sobre seu povo só veio há pouco tempo. Pouca gente sabe, mas cerca de 600.000 são os roma que vivem no Brasil. Isso é mais do que muitas porções importantes da nossa população (como os judeus e muçulmanos, por exemplo). Ainda assim, mal ouvimos falar deles.

Na faculdade, algo me chamou a atenção uma vez. Estava comendo no restaurante universitário, esbaldando-me com o bandejão, quando um cara do meu lado começa a falar que a cidade dele estava "infestada de ciganos". Que eles controlavam a política local, eram sujos, etc.
Eu lembro de ter ficado chocado como poucas vezes fiquei, porque não sabia que esse tipo de preconceito era tão forte no Brasil. Depois de estudar a Europa Oriental por certo tempo, ficou mais do que patente a discriminação que os roma sofrem lá, mas por aqui não imaginava. Começando a prestar atenção, após um tempo, percebi que muitas pessoas, em especial as mais velhas, têm visões muito negativas dos roma, e a notícia do UOL veio reforçar um traço que lhes é comumente atribuído: serem traiçoeiros.

Parece que essa visão, que para mim era tão desconhecida, ainda impera em muitos locais. É mais uma característica da nossa sociedade taxativa e preconceituosa. Na mídia, porém, é um disparate que se reproduza qualquer tipo de rótulo que reflete, para além do estereótipo, uma parca preparação jornalística.